Com 85% das obras já concluídas, o
complexo carcerário de Itaquitinga fica pronto em janeiro do ano que
vem. Enquanto a cidade vai ganhar presos, os presídios de Itamaracá
serão desativados.

Presídio de Itaquitinga fica pronto até janeiro de 2012. Foto: Bernardo Soares/JC Imagem.
Começou a contagem
regressiva para a prometida revolução no sistema penitenciário de
Pernambuco. Com 85% das obras já concluídas, o complexo carcerário de
Itaquitinga, na Mata Norte, fica pronto em janeiro do ano que vem,
conforme assegura o consórcio responsável pela execução dos serviços do
primeiro centro prisional do País erguido por meio de uma parceria
público-privada (PPP). Nas contas do governo do Estado, até fevereiro
terá início o processo de transferência dos detentos. Quando estiver
totalmente ocupada, a verdadeira cidade de aço, concreto e grades,
encravada numa área de 90 hectares, no meio de um canavial, receberá
3.126 apenados, o equivalente a quase 20% de toda a população do
município.
Mais do que inaugurar o megapresídio, que custou R$
300 milhões, esse processo é repleto de simbologia. Primeiro, é a chance
de a administração pública mostrar que é capaz de gerenciar o sistema
de forma bem diferente do quadro atual. Maculado pela presença de
milícias – comando ilegal exercido por presos que fazem o trabalho de
agentes carcerários – violência e déficit, que chega a mais de 10 mil
vagas, o sistema pernambucano ganhou do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) o carimbo de pior do Brasil. Em segundo lugar, representa a
concretização de um antigo plano que ultrapassou gestões
administrativas. A mudança permitirá, finalmente, a desativação gradual
das três unidades da Ilha de Itamaracá, no Grande Recife, que aposta
nisso como mola propulsora da redenção do turismo, a principal vocação
econômica.
A real perspectiva de ocupação das cinco novas
unidades, duas de regime semiaberto e três de regime fechado, após anos
de planos frustrados, desperta sentimentos bem diferentes em moradores
das duas regiões pernambucanas. Em Itaquitinga, o medo do crescimento da
criminalidade provocado pela presença de um gigantesco presídio e a
incerteza, diante da falta de estrutura básica para a explosão
demográfica. Afinal, com os presidiários chegarão familiares e diversos
pequenos comerciantes, de olho num mercado que tende a crescer
rapidamente. Do Centro até o presídio são dez quilômetros. Perto de lá,
em Itamaracá, a notícia de abertura do centro de ressocialização traz o
sentimento de alívio. Só de falar no fim da Penitenciária Agroindustrial
São João, a antiga PAI, a Penitenciária Barreto Campelo e o Hospital de
Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP), onde vivem cerca de 3 mil
detentos, o mercado imobiliário está em aquecimento. O sentimento de um
futuro mais tranquilo já voltou a fazer parte da vida das pessoas.
COBRANÇAS
- Na pequena Itaquitinga, a 66 quilômetros do Recife, o novo complexo
de ressocialização, como preferem batizar o governo e o consórcio, o
cenário, da qual faz parte a imensa construção cercada por alambrados de
seis metros de altura, afloram cobranças por melhorias. No município,
com pouco mais de 15 mil habitantes e dependente da indústria da
cana-de-açúcar, realidade rima com precariedade. “Já que a gente recebeu
um presídio, coisa que ninguém quer, deveria receber as melhorias.
Precisamos ajeitar as estradas e pavimentar o entorno do centro de
ressocialização. Também temos problema de abastecimento”, resume o
presidente da Câmara de Vereadores, Roque João dos Santos (PPS).
Exemplos
da falta de estrutura básica estão espalhados por todos os lugares. O
centro de saúde só tem capacidade para atender casos de média
complexidade e não pode realizar cirurgias. Doente mais grave precisar
ir para Goiana, a 14 quilômetros, ou para o Recife. A delegacia tem um
delegado e três profissionais. Um deles é chefe de investigação,
plantonista e comissário. No destacamento da Polícia Militar, três
homens para cobrir também a área rural. Este ano, ocorreram três
assassinatos, número bem menor do que os 10 registrados em 2010. Mas
furtos e assaltos preocupam a população. Já é um reflexo do aumento
populacional e da circulação de dinheiro decorrentes da construção do
presídio. “Depois que o pessoal das construtoras chegou aqui para
começar as obras, a nossa vida mudou muito. O pessoal das escolas anda
assustado com roubos de celular e ninguém dorme mais de porta
destrancada como antes”, revela Tânia Santana, funcionária de um pequeno
restaurante no distrito de Chã de Sapé, a dois quilômetros do complexo
penitenciário.
Na pequena comunidade, de pouco mais de três mil
habitantes, a pacata rotina, quebrada pela construção dos presídios,
tende a mudar ainda mais com a chegada dos presos. Os pequenos
comerciantes passaram a fechar as lojas mais cedo. Dona do mercadinho,
Terezinha Sousa, 72 anos, está de malas prontas para se mudar para
Goiana com os parentes. Casas construídas para abrigar operários jogaram
para cima o valor do aluguel. Três quartos, sala e banheiro, no meio do
nada e onde a energia falta dia sim e outro também, custava R$ 150 e
hoje bateu na casa dos R$ 350. “Temos medo de que esse pessoal traga os
parentes para morar aqui. Nosso posto de polícia está fechado há anos e a
patrulha só aparece de vez em quando nos fins de semana. Nós é que
vamos ficar aprisionados, com medo das pessoas erradas”, declara
Everaldo Vieira de Souza, dono da minúscula revendedora de gás de
cozinha da localidade.
Enquanto a comunidade de Chã de Sapé
acompanha, do alto da colina, passo a passo o surgimento do gigante no
meio aos plantios de cana, em Itamaracá, embora ressabiada com a
frustração de promessas anteriores de retiradas dos presídios, a
população já vislumbra o fechamento das unidades que tanto prejudicaram o
município.
Construídos numa época em que a cidade era apenas
uma ilha distante da capital, o que deixava presos no isolamento, dos
grandes centros, os presídios foram engolidos pela explosão demográfica e
descontrole urbano. Casas de veraneio passaram a ser vizinhas dos
grandes muros. E do perigo. “Faço parte do corpo de jurados há vários
anos. Teve época em que de 15 julgamentos de homicídios aqui na Ilha dez
tinham relação com os presidiários do sistema”, conta o agente de
trânsito Valni José de França, nascido e criado em Itamaracá, lembrando
de uma época difícil e que todos esperam que mude o quanto antes. O
reflexo da grande expectativa é a melhoria nos preços de aluguel e a
venda de imóveis. “Já registramos aumento de 32% em algumas áreas. Perto
do Forte Orange, onde ninguém queria mais viver, estamos conseguindo
até vender casas no início da construção. Isso só de falar que os
presídios vão sair”, confirma a corretora Nelma Souza.
Fonte: NE 10.